Em busca do colossal vulcão que atingiu a Europa no Séc. XV

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Foi no século XV que um vulcão levou a Terra a uma nova “Idade do Gelo”, este causou a morte de milhões de pessoas e alterou a vida na Europa. A sua localização exacta nunca foi descoberta.

Na Alemanha, a intensa chuva fez com que os corpos enterrados no cemitério viessem à superfície. Na Polónia, as pessoas atravessavam as ruas em barcos. O castelo da poderosa Ordem dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém, não sobreviveu às cheias e aldeias inteiras foram inundadas pela água. Foi assim durante quatro meses, após uma densa nuvem húmida e azulada ter ocultado o Sol ao meio-dia de 10 de Outubro de 1465, quando um fenómeno natural, localizado a milhares de quilómetros de Itália, chamou a atenção para o céu, no mesmo dia em que a monarca Ippolita Maria Sforza casava com o rei Afonso II de Nápoles.

Após 5 séculos, recorda a BBC, os cientistas redescobriram esta história enterrada no gelo, existia um pico de acidez guardado no gelo polar que testemunhava uma erupção vulcânica de magnitude tal que atirara a Terra para uma pequena Idade do Gelo. Os peixes morreram encurralados dentro de lagos congelados, nenhuma flor brotou e nenhuma erva germinou. Onde antes estavam rios, já só estavam pontes de gelo por onde a população de Bolonha fugiu em cima dos cavalos. Passado mais de meio milénio desde esta erupção, mantém-se uma questão, qual foi e onde está o vulcão que provocou tudo isto.

Os registos do século XV garantem que houve de facto uma explosão e que a mesma podia ser ouvida a 2 mil quilómetros de distância, o mesmo que separa Portugal de Luxemburgo. As análises químicas ao gelo garantiram ainda que a erupção vulcânica faz do desastre de Tambora, de 1815, um simples fósforo, mesmo tendo em conta que essa erupção libertou energia equivalente a 2,2 milhões de bombas atómicas, já Little Boy, em Hiroshima, matou cerca de 700 mil pessoas e deixou rastos tanto no gelo da Antártida como no da Gronelândia. Acerca da “erupção mistério”, sabemos apenas que foi a pior.

Mesmo assim, os cientistas conseguem prever a dimensão do fenómeno natural com base nos registos que têm, a “erupção mistério” terá lançado grandes quantidades de enxofre para a atmosfera e ela reagiu, choveu nos pólos sob a forma de ácido sulfúrico, daí os registos deixados no gelo. Os cientistas sabem que foi assim, por um motivo simples, para além de um vulcão só um asteróide deixaria esta impressão digital. Não há mais sinais de impacto deste género naquelas regiões.

No ano de 1950, uma equipa de arqueólogos viajou para Tongoa, Vanuatu, e ouviu dizer que antigamente aquela ilha, estava ligada a Epi (ilha vizinha), através de uma massa terrestre de nome Kuwae, que seria também a caldeira de um vulcão. No dia seguinte ao grande terramoto, o vulcão entrou em erupção num evento cataclítico que atirou Kuwae para o fundo do mar e ainda separou as duas ilhas. Agora, garantem os locais que herdaram os relatos do sobrevivente Ti Tongoa Liseiriki, é uma cratera no oceano com um quilómetro de diâmetro. Mais uma camada de cinzas que cobre as duas ilhas, libertada por gases e rochas libertadas pela caldeira a uma velocidade na ordem das centenas de quilómetros por hora. No entanto, em 1950, quando esta história foi ouvida, ainda não havia conhecimento da misteriosa erupção vulcânica de 1465.

Anos depois e ainda sem pistas que encaminhassem os cientistas para a localização do vulcão. No ano de 1993, o Jet Propulsion Laboratory da NASA deu um passo em frente, “não, a erupção não tinha ocorrido em 1465”, concluíram. Na realidade tinha ocorrido em 1453, no mesmo ano em que as culturas não deram alimento na Suécia, em que nenhuma árvore cresceu na Europa e em que milhares de pessoas congelaram até à morte na China devido a um evento nunca antes compreendido ou testemunhado. Nevou no rio Yangtze, o mar Amarelo congelou e os aztecas enfrentaram a maior fome desde a pré-História.

Com estas informações, uma equipa de franceses foi até Vanuatu e estimou que a quantidade de magma emitido por Kuwae era suficiente para preencher o Empire State Building 37 milhões de vezes, já o vulcão, tinha expelido cinzas a uma altura de 48 km. Com estes dados os franceses negaram a tese da NASA e dizem que ao estudarem as árvores que morreram nessa época, a erupção teria ocorrido entre 1420 e 1430. E aí, o mistério parecia estar resolvido, o vulcão era Kuwae e havia entrado numa erupção épica antes de meados do século XV. Até que a Nova Zelândia discordou.

Karoly Nemeth, neozelandês da Universidade de Massey, estava reticente em relação à teoria e voou até ao local para procurar os sinais da erupção, capaz de provocar alterações climáticas. Mas não as encontrou. Embora grande, Kuwae não havia lançado enxofre suficientemente alto para provocar chuvas de ácido sulfúrico nos pólos. Não chegava perto de Tambora, Kuwae não tinha lançado detritos a mais de 1 km de altura, só que tinha entrado em pequenas erupções, algumas vezes num curto espaço tempo. Ainda sendo, Tambora teria sido mais grave.

Já em 2012, chegam novidades da Antártida. Em Law Dome, onde é habitual nevar muito, os cientistas conseguiram projectar uma verdadeira linha do tempo e assim sinalizar as grandes erupções vulcânicas dos últimos dois mil anos. Desta forma concluíram que, no século XV, os registos vulcânicos evidenciam duas erupções de grandes dimensões, uma das quais em 1458. O que coincide com uma época apontada para 1453, altura em que a Terra arrefeceu consideravelmente e Kuwae estava muito activo. Ainda assim, os cientistas dizem que estes dados não provam nada e são meramente “circunstanciais”. Afinal este pode não ter sido o ano do catastrófico evento natural e Kuwae pode não ter sido o responsável.

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