Doença fatal curada em embriões humanos? Afinal parece que não

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O estudo no qual uma equipa de cientistas garantiu ter corrigido, pela primeira vez, uma mutação hereditária e fatal em embriões humanos através da CRISPR — uma ferramenta de engenharia genética — foi agora colocado em causa por reconhecidos investigadores na área das células estaminais e da genética.

Segundo o artigo publicado por esses mesmos investigadores na revista bioRxiv, não há um mecanismo biológico que explique como é que uma mutação genética no espermatozóide pode ser ultrapassada usando a versão do mesmo gene transportado no óvulo. Os investigadores vão ainda mais longe e afirmam que a equipa, liderada por Shoukhrat Mitalipov, “nunca conseguiu realmente consertar a mutação genética” e que “foram levados a pensar que o tinham feito porque usaram um teste genético adequado”.

Há cerca de um mês, uma equipa internacional de cientistas liderada por Shoukhrat Mitalipov, um biólogo conhecido por ter criado células estaminais com base em células da pele, este anunciou ter curado embriões humanos com mio-cardiopatia hipertrófica após ter reparado uma mutação muito comum que provoca esta doença hereditária e fatal. Uma vez que essa doença é provocada por um erro na informação transportado no gene MYBPC3, os cientistas utilizaram o CRISPR para eliminar a informação genética errada e colar uma versão correta.

Neste estudo publicado na revista Nature, Mitalipov explicou como terá conseguido tal feito. O que os cientistas fizeram foi injectar em óvulos doados por mulheres saudáveis os espermatozóides de um homem doente e, ao mesmo tempo, o CRISPR. Essa ferramenta de edição levava guias de ARN, um ácido semelhante ao ADN responsável pela síntese de proteínas da célula, que tinham como função encontrar o local exacto onde os genes precisam de ser corrigidos. Levava também enzimas, que funcionavam como tesouras que iam cortar do ADN a parte defeituosa. Quando essa parte foi cortada, a informação correcta guardada no CRISPR foi colada no ADN e o material genético ficou completamente correcto.

Dos 58 embriões que resultaram dessa fertilização in vitro pioneira, 42 ficaram completamente livres da mutação do gene que provocava a mio-cardiopatia hipertrófica, por isso, Mitalipov anunciou um sucesso de 72% nesta técnica. No entanto, segundo o estudo liderado por Dieter Egli, um cientista de células estaminais da Universidade de Columbia, e por Maria Jasin, uma bióloga de desenvolvimento do Centro de Oncologia Sloan Kettering, existem razões para crer que nada disto aconteceu.

Egli apresentou duas explicações que mostram como é que Mitalipov pode ter interpretado erradamente os resultados da experiência. A primeira explicação diz que, após a fertilização, o material genético do espermatozóide e do óvulo ficam separados em extremidades opostas e separados por uma membrana durante umas horas. Isso tornaria muito difícil para o CRISPR recortar a mutação errada de uma parte e ir buscar a informação genética certa à outra parte, num processo chamado “recombinação homóloga”.

Segundo Dieter Egli e Maria Jasin, esse processo pode não ter sido detectado pela equipa de Mitalipov porque podem ter utilizado um ensaio genético que ocultou um outro mecanismo, o CRISPR pode ter simplesmente cortado a informação genética vinda do progenitor sem nunca ter substituído esse material por outro. Para corrigir o espaço vazio, o CRISPR pode ter “cosido” as extremidades do ADN que estavam soltas juntando peças aleatórias.

A segunda explicação dada por Dieter Egli e Maria Jasin afirma que pode ter-se dado um fenómeno chamado partenogénese, que ocorre quando um ser vivo se desenvolve sem a participação da informação genética de um macho e de uma fêmea, mas apenas da progenitora.

Quando questionado pela Nature, Mitalipov diz que “o estudo assinado por Egli não acrescenta nada de novo, apenas oferece explicações alternativas para os nossos resultados com base em puras especulações”.

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