Coronavírus: nove razões para não entrarmos em pânico

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A epidemia do coronavírus é claramente um problema global grave: em poucas semanas, espalhou-se da China para mais de 80 países, infectando mais de 100.000 pessoas, até agora, e causando mais de 3.400 mortes.

Mas também devemos saber que, por isso, somos interpelados por diversas formas, minuto a minuto, no mundo todo, e olhamos para o avanço do Covid-19 em tempo real – alertas noticiosos, enormes manchetes, histeria nas redes sociais – e isso coloca-nos em risco de perdermos algum contexto essencial.

Este vírus é obviamente um enorme desafio: médico, político e – talvez mais importante – social e económico. Mas vale a pena lembrar que o mundo nunca teve melhores ferramentas para combatê-lo, e que se formos infectados, é pouco provável que morramos por isso. Num trabalho realizado pelo jornal inglês The Guardian, que ouviu vários cientistas, entre os quais Ignacio López-Goñi, professor de microbiologia e virologia na Universidade de Navarra, em Espanha, é feita uma lista de nove razões para olharmos o novo coronavírus com tranquilidade:

1 – O vírus é conhecido. Como López-Goñi escreveu para o The Conversation, em França, o vírus causador de casos de pneumonia grave em Wuhan foi identificado em apenas sete dias, após o anúncio oficial, em 31 de Dezembro. Três dias depois disso, a sequência genética estava disponível. O HIV, pelo contrário, levou dois anos para ser identificado após o seu aparecimento em meados de 1981, observou López-Goñi. Sabemos também que o vírus é natural, que está relacionado com um vírus encontrado em morcegos, e que pode sofrer mutações, mas não parece fazê-lo com muita frequência.

2 – Podemos fazer testes para sabermos se estamos infectados. A 13 de Janeiro – três dias após a publicação da sequência genética – estava disponível um teste fiável, desenvolvido por cientistas do departamento de virologia do hospital universitário Charité, em Berlim, com a ajuda de especialistas em Roterdão, Londres e Hong Kong.

3 – Sabemos que o vírus pode ser contido (embora a um custo considerável). A quarentena draconiana da China e as medidas de contenção parecem estar a funcionar. Na quinta-feira 120 novos casos foram relatados em Wuhan, o número mais baixo em seis semanas, e, pela primeira vez desde o início do surto, não houve qualquer caso em nenhuma localidade no resto da província de Hubei. Várias províncias chinesas não tiveram novos casos durante uma quinzena, ou mais, e estão a reabrir as suas escolas. Em muitos países, as infecções estão contidas em grupos definidos, o que poderia permitir que fossem mais prontamente contidas.

4 – Apanhá-lo não é assim tão fácil (se tivermos cuidado) e podemos controlar o contágio muito facilmente (desde que tentemos). A lavagem frequente e cuidadosa das mãos, como todos sabemos agora, é a forma mais eficaz de impedir a transmissão do vírus, enquanto uma solução de etanol, peróxido de hidrogénio ou lixívia desinfectará as superfícies (mas nunca as três substâncias juntas). Para sermos considerados em alto risco de contágio do coronavírus, precisaríamos de viver com alguém, ou ter contato físico directo com alguém infectado, ter estado no raio de tosse ou espirros de alguém infectado (ou usar uma peça de roupa contagiada), ou estar em contacto face a face com alguém infectado, num raio de dois metros, por mais de 15 minutos. Não estamos a falar de nenhum contágio possível por alguém que se cruze connosco na rua.

5 – Na maioria dos casos, os sintomas são leves, e os jovens correm um risco muito baixo. Segundo um estudo realizado a mais de 45 mil infectados na China, 81% dos casos causaram apenas sintomas menores, 14% dos pacientes apresentaram sintomas descritos como “graves” e apenas 5% foram considerados “críticos”, com cerca de metade desses casos a resultar na morte dos doentes. Apenas 3% dos casos dizem respeito a menores de 20 anos, as crianças parecem pouco afectadas pelo vírus e a taxa de mortalidade para os menores de 40 anos é de cerca de 0,2%. A taxa aumenta na faixa etária acima de 65 anos, chegando a quase 15% na faixa etária acima de 80 anos, especialmente naquelas pessoas que têm problemas cardíacos ou pulmonares anteriores. O cálculo das taxas de mortalidade durante uma epidemia em curso é difícil porque não é claro quantos casos leves ou assintomáticos foram testados, mas a melhor estimativa que temos até agora para o coronavírus é de 1,4% – algures entre a gripe de 1918 e a gripe suína de 2009.

6 – As pessoas estão a recuperar. Como mostra a contagem diária mantida pelo CSSE da Universidade americana de Johns Hopkins, milhares de pessoas em todo o mundo estão a recuperar, confirmadamente, do coronavírus todos os dias.

7 – Centenas de artigos científicos já foram escritos sobre o assunto. Digite Covid-19 ou Sars-19 no motor de busca do site PubMed da biblioteca nacional de medicina dos EUA e encontrará, apenas cinco semanas após o surgimento do vírus, 539 referências a artigos sobre ele, tratando de vacinas, terapias, epidemiologia, diagnóstico e prática clínica. Essa é uma taxa de publicação exponencialmente mais rápida do que durante a epidemia de Sars, observa López-Goñi – e a maioria dos artigos sobre o coronavírus destas publicações é de acesso livre.

8 – Existem protótipos de vacinas. Laboratórios comerciais farmacêuticos e biotecnológicos como Moderna, Inovio, Sanofi e Novavax, assim como grupos académicos da Universidade de Queensland na Austrália – muitos dos quais já estavam a trabalhar em vacinas para vírus similares relacionados com a Sars – têm protótipos de vacinas preventivas em desenvolvimento, algumas das quais em breve estarão prontas para testes em humanos (embora a sua eficácia e segurança levarão o seu tempo para serem garantidas, é claro).

9 – Dezenas de tratamentos já estão a ser testados. Em meados de Fevereiro, mais de 80 ensaios clínicos estavam em andamento para tratamentos antivirais, segundo a revista Nature, e a maioria já foi utilizada com sucesso no tratamento de outras doenças. Drogas como remdesivir (Ébola, Sars), cloroquina (malária), lopinavir e ritonavir (HIV), e baricitinibe (poliartrite reumatóide) estão a ser testados em pacientes que contraíram o coronavírus, alguns como resultado de pesquisas que integram inteligência artificial.

Fonte: DN

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