Cientistas encontram provas de ‘anti-memórias’, isto pode mudar nossa compreensão da neurociência

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Nalgum momento, todos nós já experienciámos algo que preferiríamos esquecer, portanto acaba por sem bom o facto de os nossos cérebros não serem desenhados para guardar todas as memórias para sempre. Se o fizessem, nós poderíamos nunca ser capazes de guardar novas, e mais importantes informações, como por exemplo os nomes de novas pessoas que conhecemos ou onde estacionamos o carro.

Mas ao nível dos neurónios, o que está realente a acontecer à nossa cabeça para fazer com que nos esqueçamos daquilo que já soubemos? Uma nova pesquisa sugere que uma das formas como nos esquecemos das coisas é devido ao que pode ser descrito como ‘anti-memórias’ – conexões entre os neurónios que geram o padrão exactamente oposto de actividade eléctrica do que gerou a memória original.

A hipótese das ‘anti-memórias’ baseia-se na ideia de que uma função cerebral saudável resulta da interacção entre dois tipos de células cerebrais: neurónios excitadores e inibidores. Como os nomes sugerem, os neurónios excitadores excitam a actividade eléctrica no nosso cérebro, enquanto os neurónios inibidores suprimem-na.

Os cientistas acham que sem este equilíbrio de funções excitador/inibidor (E/I), neurónios excessivamente excitados poderiam criar condições como a epilepsia, esquizofrenia e autismo.

Num novo estudo, pesquisadores da University of Oxford e da University College London no Reino Unido têm observado como tal função afecta a nossa capacidade de nos lembrarmos da informação.

Quando aprendemos algo, são criadas ligações entre os neurónios excitadores. Isso é bom, porque permite-nos criar novas memórias, mas também faz com que o nosso sistema E/I fique desequilibrado. Para restaurar esse equilíbrio, as ligações inibidoras – na forma de anti-memórias que negam os padrões eléctricos que criam as memórias – entram na jogada. Estas anti-memórias na verdade não destroem as memórias, mas silenciam-nas.

Os cientistas já estudaram as anti-memórias em animais e modelos teóricos, mas até agora, ninguém sabia muito sobre a forma como poderiam funcionar nas pessoas.

Para o examinar, os pesquisadores utilizaram imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) e outras técnicas para observarem detalhadamente a actividade cerebral dos voluntários. Foram apresentados aos participantes pares de formas, que os ajudaram a formar memórias associativas dos pares.

“Passadas 24 horas, as associações de formas no cérebro tornaram-se silenciosas. Poderá ter sido o cérebro estava reequilibrado ou poderá ter sido simplesmente o facto de as associações terem sido esquecidas”, disse a neurocientista Helen Barron da University of Oxford.

“Então no dia seguinte, alguns dos voluntários tiveram de fazer testes adicionais para confirmar que o silenciar era uma consequência do reequilíbrio. Se as memórias estavam presentes, mas silenciadas pelas réplicas inibitórias, nós pensámos que seria possível re-expressar as memórias a suprimir a actividade inibitória.

Utilizando Estimulação transcranial directa com corrente (tDCS) para aplicar uma baixa intensidade de corrente eléctrica no cérebro dos pacientes, a equipa conseguiu suprimir a concentração de certos neuro-químicos no cérebro, incluindo GABA, que está ligada ao inibidor. Ao fazê-lo, eles diminuíram a actividade dos neurónios inibidores de anti-memória, o que significa que as memórias das associações de formas foram re-expressadas e voltaram para os voluntários.

“Nós demonstramos que a diminuição da inibição cortical pode revelar as memórias silenciadas”, disse Barron. “Este resultado é consistente com o mecanismo de equilíbrio – o aumento da excitação observado na aprendizagem e na formação da memória, quando as ligações excitadoras são reforçadas, parecendo ser equilibrada pelo reforço das ligações inibidoras. Disto podemos concluir que as memórias são armazenadas em conjuntos corticais E/I equilibrados”.

Convém ter em mente que este foi um pequeno estudo apenas com um pequeno número de participantes, portanto ainda é muito cedo para entendermos exactamente como estas ligações inibidoras funcionam. Mas os pesquisadores dizem que as provas de anti-memórias nos humanos e a habilidade de manipula-las poderá ser um grande passo em frente em termos de compreensão e tratamento de condições neuropsiquiátricas.

“O paradigma tem o potencial de ser directamente transmitido para grupos de pacientes, incluindo aqueles que sofrem de esquizofrenia e autismo”, disse Barron. “Nós esperamos que esta pesquisa possa agora ser levada em frente em colaboração como psiquiatras e grupos de pacientes para que possamos desenvolver e aplicar este novo conhecimento para diagnosticar e tratar doenças mentais”.

O estudo foi publicado no jornal Neuron.


(Vídeo em Inglês)

[ScienceAlert]

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